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Conhecimento técnico na gestão de efluentes: o barato sai caro na ETE

Foto do escritor: Danieli Kist
Danieli Kist
15 de set.
6 min de leitura

Conteúdo


Em tratamento de efluentes, reduzir custos é uma preocupação legítima. O problema começa quando a economia é feita justamente no conhecimento técnico na gestão de efluentes, que deveria orientar onde, como e por que os recursos serão utilizados. Ao longo dos anos trabalhando com estações de tratamento de efluentes, já encontrei empresas tentando economizar na gestão da ETE enquanto gastavam, mês após mês, valores muito superiores com produtos desnecessários, equipamentos operando sem necessidade, análises que não respondiam às perguntas certas e serviços que poderiam ter sido evitados com uma avaliação técnica adequada.


E existe uma situação particularmente contraditória em muitos desses casos: a empresa já possuía um responsável técnico pela operação e já pagava pela emissão da respectiva ART. No entanto, quando a responsabilidade técnica se resume praticamente à formalização documental, sem conhecimento específico aplicado à rotina do tratamento, o menor valor dos honorários pode representar uma economia apenas aparente. A empresa paga menos pelo acompanhamento técnico, mas pode acabar pagando muito mais para manter uma operação que ninguém está efetivamente questionando.


Responsabilidade técnica não deveria ser apenas uma ART

A Anotação de Responsabilidade Técnica é fundamental para formalizar a responsabilidade profissional sobre uma atividade, mas a existência da ART, isoladamente, não torna uma estação tecnicamente bem gerida. Na prática, o valor da responsabilidade técnica está justamente no conhecimento que acompanha essa atribuição: compreender o processo, interpretar resultados, identificar desvios, orientar a operação, avaliar a real necessidade de insumos e buscar continuamente formas de melhorar o desempenho.


Isso exige conhecer tratamento de efluentes. Uma ETE é um processo dinâmico, influenciado pela composição do efluente, carga orgânica, vazão, temperatura, microbiologia, condições hidráulicas, características físico-químicas e forma de operação. Quando essas relações não são compreendidas, é muito fácil tratar sintomas em vez de causas. E tratar sintomas continuamente costuma custar caro.


Já encontrei, inclusive, empresas que não sabiam identificar corretamente o próprio sistema de tratamento. Estruturas compostas basicamente por tanque séptico e filtro anaeróbio eram chamadas genericamente de “ETE”, sem que houvesse clareza sobre as unidades existentes, o percurso do efluente ou os processos que efetivamente aconteciam dentro delas. Se não conhecemos sequer o sistema instalado, fica muito difícil tomar boas decisões sobre sua operação.


Quando um produto passa a substituir o diagnóstico

Um dos exemplos mais claros dessa situação aparece no uso de insumos. Já acompanhei sistemas nos quais produtos eram aplicados há tanto tempo que ninguém mais sabia explicar exatamente por que aquela aplicação havia começado. O produto fazia parte da rotina operacional e, por isso, continuava sendo comprado.


Já encontrei aplicação de cloro sem que houvesse uma necessidade técnica que justificasse aquela rotina. Em outro caso, assumi a responsabilidade técnica de uma ETE que utilizava antiespumante continuamente, 24 horas por dia, havia mais de cinco anos. A espuma era tratada como um problema que precisava permanentemente de produto químico. Quando sua origem foi investigada, entretanto, foi possível identificar a causa e realizar um ajuste operacional relativamente simples. A aplicação contínua do antiespumante deixou de ser necessária.


Durante cinco anos, aquele insumo representou custo de aquisição, armazenamento, aplicação e manejo operacional. O problema não era a existência do antiespumante — existem situações em que seu uso é tecnicamente justificável. O problema era utilizá-lo continuamente para controlar um efeito sem investigar por que a espuma estava sendo formada.


Esse raciocínio vale para coagulantes, polímeros, nutrientes, oxidantes, corretores de pH, antiespumantes, produtos biológicos e tantos outros insumos empregados em tratamento de efluentes. A pergunta não deveria ser apenas “qual produto utilizar?”, mas também “este produto realmente precisa ser utilizado?”. E, quando precisa, outras perguntas vêm logo depois: qual a dosagem adequada, por quanto tempo, com qual objetivo e como sua efetividade será avaliada?


Às vezes, a própria concepção do tratamento está encarecendo a operação

Outra situação que já encontrei em campo foi uma empresa com um efluente de elevada biodegradabilidade que mantinha uma operação onerosa, fortemente dependente de produtos químicos. A possibilidade de tratamento biológico sequer havia sido devidamente considerada.


Esse tipo de situação mostra por que conhecimento técnico não serve apenas para resolver problemas depois que eles aparecem. Ele também é necessário para questionar a própria lógica do tratamento. Caracterizar o efluente e compreender sua tratabilidade deveria anteceder a definição de muitos processos e insumos. Quando isso não acontece, uma empresa pode passar anos tentando adequar o efluente a uma estratégia operacional quando talvez devesse estar fazendo exatamente o contrário: escolhendo a estratégia de tratamento a partir das características daquele efluente.


O custo de uma decisão inadequada dificilmente aparece em uma única nota fiscal. Ele se acumula mensalmente em produtos, energia, mão de obra, geração e destinação de lodo, manutenção, análises e intervenções adicionais. Quando esse custo é observado ao longo de um ou dois anos, uma decisão aparentemente pequena pode representar um valor bastante expressivo.


O custo invisível da falta de conhecimento técnico

Talvez esse seja o ponto que mais me chama atenção nos casos que acompanho. Quando uma empresa compara propostas para responsabilidade técnica ou assessoria de uma ETE, normalmente enxerga com muita clareza o valor dos honorários profissionais. É um número objetivo e fácil de comparar. Já o custo de uma operação tecnicamente ineficiente fica pulverizado em diferentes centros de custo e dificilmente aparece como uma única despesa. É justamente nesse ponto que o conhecimento técnico na gestão de efluentes deixa de ser apenas uma questão de qualidade profissional e passa a ter impacto econômico direto sobre a operação.


Um produto desnecessário está na compra de insumos. Uma bomba operando mais horas do que deveria aparece na energia e na manutenção. Uma análise contratada sem necessidade aparece no laboratório. Uma consultoria pontual para resolver algo que deveria fazer parte da gestão técnica aparece como outro serviço. O excesso de lodo aparece no transporte e na destinação. Quando cada despesa é analisada separadamente, pode parecer que não existe relação entre elas. Muitas vezes existe: falta alguém olhando tecnicamente para o sistema como um todo.


Já acompanhei empresas que buscavam economizar contratando uma responsabilidade técnica de menor custo, mas gastavam valores muito superiores com insumos desnecessários e serviços que poderiam fazer parte do próprio acompanhamento técnico. Nesses casos, a pergunta deixa de ser “quanto custa um bom responsável técnico?” e passa a ser “quanto está custando não ter uma gestão técnica efetiva da ETE?”


Uma ETE eficiente não é necessariamente a que utiliza menos produtos

Também é importante fazer essa distinção. Gestão técnica não significa simplesmente retirar produtos, reduzir dosagens ou cortar despesas. Existem estações nas quais o uso contínuo de determinados insumos é necessário e tecnicamente justificável. Da mesma forma, existem processos que exigem acompanhamento laboratorial frequente, intervenções especializadas e investimentos operacionais relevantes.


O objetivo não é gastar menos a qualquer custo. É saber por que se está gastando.


Uma operação eficiente utiliza os recursos necessários para atingir seus objetivos ambientais e operacionais, mas consegue justificar tecnicamente esses recursos e avaliar sua efetividade. Quando um insumo deixa de ser necessário, ele deve ser questionado. Quando uma dosagem pode ser otimizada, deve ser testada. Quando um equipamento pode operar de maneira diferente, essa possibilidade deve ser avaliada. E quando determinado investimento é indispensável para garantir desempenho e conformidade ambiental, também cabe ao responsável técnico demonstrar por que ele não deve ser cortado.


Economizar na ETE começa por conhecer a ETE

Existe uma diferença importante entre cortar custos e otimizar custos. Cortar significa simplesmente retirar uma despesa. Otimizar exige compreender o processo suficientemente bem para identificar onde existe desperdício e onde o investimento é indispensável.


É por isso que, na minha experiência, conhecimento técnico frequentemente se paga dentro da própria operação. Não porque todo sistema possua grandes desperdícios ou porque seja sempre possível reduzir custos, mas porque uma gestão tecnicamente estruturada permite questionar continuamente aquilo que está sendo feito. Às vezes, a resposta será eliminar um produto. Em outras, alterar uma dosagem, modificar uma rotina, ajustar um equipamento ou mudar uma estratégia de tratamento. E haverá situações em que a conclusão técnica será justamente que determinado custo precisa ser mantido.


Depois de tantos anos entrando em estações de tratamento e encontrando histórias muito diferentes, uma conclusão se repete: o conhecimento técnico na gestão de efluentes tem impacto direto sobre a forma como os recursos da ETE são utilizados. O menor custo de contratação nem sempre representa o menor custo de operação. Uma ART pode formalizar quem responde pela ETE, mas é o conhecimento aplicado diariamente que ajuda a fazer com que essa responsabilidade resulte em uma estação mais eficiente, tecnicamente coerente e ambientalmente segura.


No tratamento de efluentes, o barato também pode sair caro. E, muitas vezes, essa conta só aparece depois de meses ou anos pagando por decisões que nunca foram tecnicamente questionadas.


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Engª. Danieli kist - Bio Ativado Dra. em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental

Por Danieli Ledur Kist

Engenheira Bioquímica Mestre e doutora em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental




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